A liberdade dos outros
Detesto galos. Nem na panela gosto deles.
Destesto galos desde pequena. Ainda hoje, recordo com o mesmo impacto sonoro o cocórócócó do filho-da-mãe de um galo de uma vizinha.
Todas as manhãs. Mas mesmo todas, o raio do galo lá começa a sinfonia para galos é Dó maior.
E começa a cantar e nunca mais parava. Acho que foi por causa dele que eu comecei a discutir com a minha mãe:
“Mãe mata o galo”, implorava.
“O galo não é nosso”, respondia a minha mãe.
“Mata-o na mesma”, pedia eu.
“Os galos são para cantar”, explicava a minha progenitora.
“Manda-o calar”, voltava a implorar…
E enquanto isso, o estardalho do galo lá continuava no cócórócócó.
Recordo-me de fazer chantagem com a minha mãe: “Só como a sopa se mandares matar o galo”.
Uma vez, juntei dinheiro e fui comprar veneno para os ratos para envenar o galo. Não só o empregado da drogaria não me vendeu a droga como ainda levei uma grande coça.
Por tudo isto, detesto que me acordem de manhã de forma abrupta (lá estou eu fazer publicidade ao blog do Pacheco Pereira).
Anos depois, quase que superado o trauma do galo que acabou por morrer de velhice, volto a ter um problema semelhante.
Há mais de um mês que uma vizinha (que até é muito boa pessoa) me acorda ás sete da manhã com música do Santuário de Fátima. É que não se aguenta.
De tanto ouvir, já sei que a seguir ao “13 de Maio”, vem a “Avé-Maria” e por aí fora.
Esta manhã, diz-me o meu sócio: “Não será melhor dizer á vizinha que queremos ser nós a escolher a música com que acordamos”?
Eu só me lembro do galo de cada vez que oiço o avé, avé…..