Vem uma gaja dos 46 graus de Sófia a pensar em apanhar ar fresco nas ventas, a imaginar como será agradável tomar banho de água gelada e, pimba, atravessasse-nos um louco no caminho.
Começou no aeroporto de Sófia. Que faz uma gaja quando não tem mais nada para fazer?? Isso mesmo, observa os outros. Dou por mim de olhos pousados num homem negro, com volumosas rastas até ao fundo das costas, boné em cima da juba e mala de caixeiro-viajante na mão.
Olho para ele e penso no ar pouco higiénico do senhor. Na barba comprida, nas unhas grandes e na mala preta algo parecida com a do Tony Soprano.
Entro no avião. Ponho o cinto e preparo-me para umas horas de sono reparador.
Na fase entre o dorme-não-dorme sinto que alguém se senta no lugar ao lado do meu. Abro os olhos. Era o rasta.
“Vi que o passaporte da senhora era português. Eu sou angolano, somos de países irmãos”, diz o homem.
“Olá, desculpe eu estou mesmo muito cansada” e volto a fechar os olhos.
“Pois é por eu ser preto, não é? Sabe a gente já está habituada a isto: É preto, branco não fala”, continua.
“Oiça, eu estou mesmo estoirada…”
“Vim à Bulgária ver a minha mulher e os meus dois filhos. Este é uma país maravilhoso não é como em Portugal”, começou o reportório do gajo. E continuou: “Casei com uma bulgara. Sabe como é, em Portugal é dificil um preto arranjar mulher”.
(E eu a pensar, se tu cortasses o cabelo e as unhas, tomasses um banhito e largasses essa mala, era capaz de ajudar a arranjar mulher. Mas não abri a boca).
Devo ter adormecido ou desmaiado por algum tempo. Quando voltei a ouvir, o homem já ía na Sida em África.
“Toda a gente diz que é em África que há mais Sida mas eu não acho. Como é que sabem? Andaram a fazer análises a toda a gente?”, questiona o homem. E, á mesma velocidade, passa para a pobreza. “Dizem que há muiota pobreza em África. Não concordo. A minha família vive toda em África e é rica”.
“Que bom para o senhor”, atrevo-me a dizer.
“Mais um ano em Portugal e depois vou para os Esados Unidos. Não gosto nada da América por isso vou antes para os Estados Unidos”…
Adormeci outra vez. Quando acordei, com o barulho da descida, diz o homem: “Gostei muito de falar com a senhora. è muito simpática. Só é pena que a gente não se volte a encontrar”.
Disse que sim, que era pena. Que ele era uma pessoa simpática e que, tal como ele, não gostava nada da América mas curtia bué os Estados Unidos….