Filhos e Afilhados
Proponho desde já e antes de mais nada que, para além do subsídio de Natal e do subsídio de férias, seja criado um subsídio de Páscoa.
Não é por nada, mas sete afilhados não são compatíveis com o meu orçamento familiar….
Vamos por partes. A furia começou já na semana passada quando decidi pegar numa das afilhadas de dez anos e leva-la ás compras.
Sem exagero, juro, entramos em mais de vinte lojas. Primeiro com critério: a Benetton, a Zara, a Tiffosi. Depois, já sem critério nenhum: entravamos em todas as lojas de roupa e de calçado que nos apareciam á frente. Foram duas horas de suplício, de calvário digno da semana santa, em que eu só lhe dizia “compra qualque coisa” e ela só me respondia “não gosto”.
Finalmente, voltou à primeira loja em que tinhamos entrado e comprou uma camisola de manga curta.
Portanto, este tratamento de choque, abriu-me os olhos: o resto das prendas para os outros afilhados, fui eu que comprei, metendo em cada saco o respectivo talão para a troca. Acabaram-se as chatices.
Mas a Páscoa não é só isto, ah pois não.
Domingo de Ramos, dia de acompanhar as filhas á missa com o respectivo ramo de oliveira. Muito bem. Sim senhor. Lá estavamos nós prontinhos para missa das dez.
Entro na igreja e começo a ter vontade de chorar. A sério. As lágrimas caíam insistentemente e de forma descontrolada.
Por entre o riso do eu sócio e as dúvidas das minhas filhas, estava eu–que nem uma madalena arrependida–a chorar a morte de cristo.
Depois das lágrimas, foi a vez do nariz. Espirro atrás de espirro num sinfonia primaverial com cheirinho a cordeiro pascal.
Finalmente percebi, a causa de tanta lágrima eram as flores e os ramos de oliveira que se viam em toda a igreja. Para quem pensa que é fácil ser católico e cumprir os preceitos, cá está a prova de que não é nada fácil reger-se pelo calendário cristão.
Por tudo isto (e não só), vamos de férias e voltamos a tempo de abrir a porta para o compasso entrar na nossa casa.