Desde que conduzo, comecei a ter outra visão do mundo: aquela que o alto do meu jipe me proporciona.
E nessa nova visão (como se viesse do mundo das trevas para o mundo das luzes, filosoficamente falando), a grande revelação é o comportamento dos peões.
É extraordinário o poder dos que são automobilizados, isto é, dos que andam a pé.
Semáforos? Passadeiras? Carros? Qual quê! Reis e senhores da estrada, há peões que são verdadeiros piões.
Ele é nas curvas, ele é nas rectas, ele é nas filas, ele é nos sinais vermelhos, ele é com criancinhas ao colo, ele é sem olhar para o lado, ele é sem sequer dizer um “obrigadinho” ou apenas levantar a mão…
Os mais idosos então, na escala dos peões, são os mais corajosos. Ou porque, por cada ano de vida, acumularam direitos adquiridos (uma espécie de pontos) que lhes permite atravessar a estrada onde lhes apetece ou então porque, como já viveram muito, tornaram-se numa espécie de peões-suícidas, género “se morrer, morri”.
Creio mesmo que existe uma qualquer, ainda inexplicável, proporção entre as curvas e os atrevessamentos de estrada.
“Olha ali uma passadeira! Não, vou atravessar ali na curva que dá mais pica”.
“O semáforo está vermelho mas que se lixe, os carros que parem”.
“Há aqui um passeio, mas andar na estrada é melhor”.
E dou comigo a tentar ler mentes, a fazer da telepatia uma ciência a explorar. A tentar perceber o que vai na cabeça de alguns ‘kamicazes’ (não sei se é assim que se escreve…), mas sem sucesso.
Ontem, por exemplo, uma senhora aí com uns 80 anos, mas toda gaiteira, decidiu atravessar uma via rápida. Travei a fundo. E ela, calmamente, como se não se fosse nada, lá seguiu como um caracol, entre os veículos…
Será que eu, nos 15 anos em que tive carta e não conduzi, também fui assim???